O que o RPG fez na minha vida profissional?

Eu sou um jogador de RPG das antigas.

Jogava sentado no chão, com meus amigos, bebendo muita Coca-Cola e com a mão cheia de Fandangos. Sempre fui um jogador de D&D, o famoso Dungeons & Dragons, e sempre fui um VICIADO em jogar RPG.

Eu adorava. Todo sábado era “de lei”. A gente ia se juntar e jogar.

Porém, com o tempo, e conforme fomos ficando mais velhos, vi que os interesses do grupo começaram a mudar. O RPG, que era “de lei” todo sábado, começou a variar um pouco. Começaram a surgir algumas faltas recorrentes, alguns cancelamentos, algumas mesas inacabadas, até que virou o terror de todo RPG: A MESA que só faz a ficha e nunca mais joga.

Eu ainda consigo lembrar da última sessão de RPG que tive com aquele grupo. Éramos todos homens, então relevem os comentários, ok?

Mas foi algo mais ou menos assim.

Era na minha casa. Estávamos fazendo a ficha no quarto, e a ficha estava demorando mais do que o normal para ser feita, porque a todo momento havia uma pausa para um comentário do tipo:

“Cara, mas ela é muito gostosa.”

Ou comentários do tipo:

“Tu tá namorando mesmo? E ela vai deixar você ir com a gente na Galeria do Rock amanhã?”

Ou ainda piores:

“Cara, minha namorada vai vir comigo. Ela não vai jogar, mas vai ficar esperando a gente terminar.”

Esse último comentário é o que mais machuca.

Porque todos sabem o que vai acontecer.

Ela vai ficar impaciente.

Porque, pensa bem: até eu ficaria.

Esperar quatro horas um bando de estranhos imaginando e narrando coisas das quais eu não faço ideia do que eles estão falando ou fazendo?

Deus me livre.

Parece entrar em uma discussão de quatro horas sobre Direita e Esquerda.

Dito tudo isso, eu era apenas um adolescente com os hormônios borbulhando. Então é claro que eu e meus amigos queríamos sair, ir para shows, Galeria do Rock, (afinal, éramos do metal) shopping, baladinhas ou fazer qualquer coisa.

E eu disse QUALQUER coisa que envolvesse os perigos noturnos… hahahaha.

Então eu tinha uns 16 ou 17 anos quando dei uma pausa no RPG, talvez mais longa do que eu gostaria.

Durante vários anos, ainda tentamos jogar. Jogamos algumas coisas diferentes, grupos menores e, inclusive, jogamos uma das campanhas mais memoráveis que tenho na mente, que foi mestrada pelo Gabriel. (Beijos, te amo)

Uma campanha de zumbi. Iradaaa!

Mas foram poucas vezes. Como eu disse, muito poucas vezes.

Comecei a fazer faculdade, comecei a trabalhar e a saudade do RPG continuava batendo forte.

Comecei a procurar no YouTube canais falando sobre RPG, até que encontrei o canal do Azecos e do Gruntar.

Comecei a acompanhar os vídeos, as lives, as mesas e assistir aos FUCKING 100 episódios de Rola o Dado.

(Inclusive, TODA VEZ que vejo no RPG algum vendedor + veneno, eu lembro do Galdor. Hahahaha.)

Quem assistiu vai pegar a referência.

E eu acabei ficando viciado novamente no RPG, mas de uma forma diferente.

Eu queria consumir RPG.

Fosse como fosse.

Passei a assistir TUDO sobre RPG, ler alguns livros, ouvir podcasts etc.

Até então, eu achava que o único conteúdo de RPG que existia eram os Nerdcasts de RPG ou os Nerdcasts que falavam sobre RPG.

Até que…

Tan tan tan tan tan tan tan tan tannnnn.

Tan tan tan tan tan.

Tan tan tan tan tan tan tannnnnnn.

Isso é o Plantão da Globo.

PANDEMIA DO COVID DE 2019.

E aqui tudo mudou.

Meu trabalho começou a ser 100% em casa. Eu entrei numa noia maluca de medo de pegar COVID e morrer e me isolei de tudo.

Eu costumo dizer que SIM, eu VIVI a pandemia.

Eu era o louco do álcool em gel.

Lavava as compras.

Se alguém tossia na rua, eu me trancava no quarto.

Eu não via ninguém.

Eu realmente me isolei.

Com isso, comecei a pirar, entrar em umas noias malucas e me focar 100% no trabalho.

Estava trabalhando das 8h às 22h e, depois, ficava sem fazer absolutamente nada.

Só existindo e pensando no trabalho.

Como me foquei muito no trabalho, comecei a entrar muito mais no “ambiente corporativo”.

Na época, eu trabalhava em uma grande marca de roupas, ou Fast Fashion, como gostam de falar nesse ambiente.

Até o dia em que fui chamado para uma “call de feedback”.

Claro, porque publicitário não pode chamar de “reunião de aconselhamento”.

Começa a call.

Meu chefe começa me elogiando bastante. Eu realmente fazia um bom trabalho.

Até que ele chega nos pontos a melhorar e fala a frase:

“João, você faz um ótimo trabalho, mas só eu sei que você faz esse ótimo trabalho. Você não se expõe, não mostra seu trabalho para as pessoas e, se você quer crescer nesse ambiente, precisa mostrar seu trabalho e tomar mais a frente das coisas que você faz.”

Eu recebi aquilo e comecei a pensar:

Onde ou como eu posso melhorar?

Não é fácil. Eu tenho vergonha de falar em público. Eu não vou ficar divulgando minhas façanhas.

Eu sei que sou bom, mas também não quero ficar sem emprego porque só ele sabe que eu sou bom.

E esse feedback ficou na minha cabeça por semanas e mais semanas.

Até que, semanas depois, em um belo dia de pandemia, estava no Discord com um amigo. Estávamos jogando qualquer coisa que fosse jogavel na epoca e começamos a falar:

“Saudade de jogar um MU Online.”

“Ou um Lineage 2.”

E nisso eu disse:

“Saudade eu tenho é de jogar RPG.”

E TCHAN!

Tive uma epifania.

Ainda no Discord, falei:

“Zé, bora jogar RPG? Eu mestro.”

“RPG meu OVO.”

Sim, o Diego é assim.

“Estou falando sério, Zé. Estamos sem fazer porra nenhuma. Eu mestro. Você rola um dado aí, ou compra um kitzinho, eu compro, eu te mando, sei lá… vamos jogar?”

E, por incrível que pareça, ele devia estar muito entediado e concordou em jogar.

Combinamos de jogar em alguns dias, mas precisávamos de mais players.

Então comecei a convocar os isolados em casa.

Chamei pessoas que nunca haviam jogado RPG na vida, meu irmão, amigos e outros.

Comecei a pesquisar na internet como jogar RPG online e acabei caindo em dois lugares: Roll20 e Fantasy Grounds.

Obviamente, pelo custo e pela facilidade, comecei a aprender a mexer no Roll20.

Sim, o Foundry ainda não existia.

Mesa pronta.

Jogadores a postos.

Fichas feitas.

Câmeras ligadas.

Áudios funcionando.

A sessão foi muito divertida.

Todos adoraram.

E eu ainda mais.

Eu me senti realmente realizado.

Era como se uma velha e perdida sensação tivesse voltado com tudo.

E aí começou.

Comecei a procurar mais e mais pessoas para jogar.

Fui formando e montando mesas para quase todos os dias da semana.

Havia poucos dias em que eu não tinha RPG no final do dia.

E assim foi voltando o hábito e, em muitas aspas, o vício do RPG também.

Só que, sem eu perceber, alguma coisa além do RPG estava acontecendo.

Eu estava mudando.

Até aquele momento, eu tinha passado anos acreditando que o meu problema profissional era simplesmente “não me expor”.

Mas eu não sabia exatamente como fazer isso.

Eu não ia simplesmente acordar numa segunda-feira e começar a falar para todo mundo:

“Olá, pessoal. Gostaria de informar que sou muito bom no que faço.”

Não funcionava assim.

O RPG acabou me dando uma espécie de laboratório para isso.

Eu queria jogar mais.

Então precisava encontrar mais pessoas.

Queria montar mais mesas.

Então precisava conversar com pessoas que eu não conhecia.

Queria mestrar.

Então precisava explicar regras, conduzir uma história, manter a atenção de várias pessoas ao mesmo tempo e, principalmente, lidar com o fato de que eu não tinha ideia do que aqueles jogadores fariam cinco minutos depois.

E foi aí que comecei a perceber uma coisa.

Eu estava praticando comunicação sem perceber que estava praticando comunicação.

Eu estava me colocando na frente de pessoas que eu não conhecia.

Estava conduzindo grupos.

Estava falando por horas.

Estava improvisando.

Estava aprendendo a explicar alguma coisa de uma maneira que outra pessoa conseguisse entender.

Estava aprendendo a ouvir.

Estava aprendendo a lidar com pessoas completamente diferentes.

E estava aprendendo uma das coisas mais importantes para qualquer profissional:

não existe planejamento que sobreviva completamente ao comportamento das pessoas.

Você pode preparar uma aventura durante horas.

Pode pensar em todos os caminhos possíveis.

Pode escrever NPCs, encontros, combates e diálogos.

Aí o jogador entra na sala e decide conversar com o cachorro.

E você precisa improvisar.

No trabalho, não é tão diferente.

Você planeja uma campanha, mas o consumidor faz outra coisa.

Você monta uma estratégia, mas o mercado muda.

Você cria uma apresentação, mas alguém faz uma pergunta que você não esperava.

Você prepara uma reunião, mas a discussão toma outro caminho.

Você apresenta um projeto e alguém levanta um problema que você nunca tinha considerado.

E você precisa saber reagir.

O RPG me ensinou muito sobre improviso.

Mas também me ensinou sobre liderança.

Quando você é mestre, as pessoas estão literalmente esperando você conduzir aquela história.

Você precisa saber quando falar.

Quando ouvir.

Quando deixar os outros brilharem.

Quando intervir.

Quando mudar o plano.

E quando simplesmente deixar o caos acontecer.

Isso, para mim, acabou sendo extremamente importante profissionalmente.

Porque trabalhar com pessoas é, em grande parte, entender pessoas.

E talvez a maior mudança tenha acontecido na minha relação com a exposição.

Eu passei anos tendo vergonha de falar em público.

Hoje eu consigo subir em um palco e falar sobre o meu trabalho.

Inclusive, em 2026, tive a oportunidade de palestrar no Ecommerce Brasil.

E, enquanto eu estava ali falando para uma sala cheia de pessoas sobre Growth, e-commerce, dados e performance, eu pensei:

“Caralho… eu estou fazendo isso.”

O garoto que tinha vergonha de mostrar o próprio trabalho estava agora falando sobre ele para um monte de gente.

E, olhando para trás, acho que o caminho até ali teve muito mais RPG do que eu imaginava.

Foram dezenas de mesas.

Centenas de horas jogando.

Pessoas que eu conheci pela internet.

Pessoas que nunca tinham jogado RPG.

Pessoas que jogaram uma vez e nunca mais apareceram.

Pessoas que se tornaram amigos.

Campanhas que deram certo.

Campanhas que deram errado.

Personagens que morreram.

Histórias que nunca terminaram.

E muitas, muitas fichas que provavelmente nunca saíram do nível 1.

Mas cada uma dessas experiências me fez praticar alguma coisa.

Comunicação.

Improviso.

Liderança.

Criatividade.

Trabalho em equipe.

Escuta.

Resolução de problemas.

Adaptação.

E, principalmente, confiança para me colocar na frente das pessoas.

Não acho que o RPG seja responsável sozinho pela minha evolução profissional.

Seria exagero dizer isso.

Minha carreira foi construída por estudo, trabalho, experiências, erros, acertos e muitas outras coisas.

Mas hoje eu consigo enxergar claramente que o RPG foi uma parte importante desse processo.

E talvez essa seja a coisa mais curiosa de tudo.

Durante muito tempo, eu achei que estava jogando RPG para fugir um pouco da vida real.

No fim, talvez o RPG tenha sido uma das coisas que mais me prepararam para ela.

Hoje, seis anos depois da pandemia, continuo jogando.

Jogo online.

Jogo presencial.

Mestrei para amigos.

Mestrei para desconhecidos.

Conheci gente incrível por causa do RPG.

E continuo aprendendo.

Só que agora, quando sento atrás do escudo e começo uma sessão, consigo enxergar algumas coisas que antes passavam completamente despercebidas.

Quando um jogador não fala, eu tento entender por quê.

Quando alguém domina a mesa, eu tento equilibrar.

Quando alguma coisa sai do controle, eu improviso.

Quando ninguém sabe o que fazer, eu conduzo.

E quando alguém aparece pela primeira vez em uma mesa e está morrendo de vergonha de falar…

Eu tento fazer aquela pessoa se sentir confortável.

Porque, no fundo, talvez essa seja a maior lição que o RPG me deu.

Você não precisa ser a pessoa mais barulhenta da mesa para ser importante nela.

Às vezes, você só precisa encontrar o seu jeito de participar.

E, no meu caso, eu encontrei o meu.

Primeiro atrás de uma ficha.

Depois atrás de um escudo.

E, alguns anos depois, em frente a um palco.

No final das contas, eu comecei a jogar RPG para contar histórias.

Sem perceber, ele acabou me ensinando a contar a minha própria.

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